Thursday, April 19, 2012

Sobre mudanças

Hoje acordei achando que um trator tinha passado por cima de mim. Explico, trabalhei muito ontem, mais de 13 horas direto. Direto mesmo, estava sempre fazendo alguma coisa. Trabalhei num Café. Aliás, abre um parênteses. É um café muito bacana dentro de uma galeria de arte, onde grande parte da classe artística de Londres frequenta, e lá recebemos diretores, produtores dos grandes musicais, atores (Jude Law e Kevin Spacey entre outros já passaram por lá). Fecha parênteses. Trabalhei no café durante o dia e numa festa na galeria durante a noite. Andei (corri!) de um lado para o outro, carreguei muito peso, poli taças, levei bandeijas cheias de champagne para lá e para cá, troquei mesa de lugar, aprendi a fazer Martini... enfim, muita trabalheira o dia todo. Entao à noite lá estava eu abrindo uma garrafa de champagne (talvez a décima da noite, e por eu não abrir do jeito certo, me deixou calos na maos) a banda começou a tocar Garota de Ipanema. E como num cena de filme, fiquei com a champagne parada na mão ouvindo a melodia brasileira e pensando: o que eu estou fazendo aqui?

Na mesma semana esta foi a segunda vez que me fiz esta pergunta. Antes de ontem, estava imersa nos meus trabalhos que tenho que conluir para a universidade. Estudando uma matéria exaustiva que acho que não vou usar para nada e outra disciplina em que devo usar um software super complexo que me deixa descabelada sempre que tenho que trabalhar com ele.

Então as vezes me bate essas questões. Fico pensando que se eu estivesse no Brasil, estaria trabalhando tranquilamente, ou fazendo algum curso mais tranquilo, usando minha lingua materna... Estas questões surgem porque sou inquieta. Não me ponho numa situação, seja ela qual for, sem refletir sempre sobre o que significa para mim. E às vezes certas inquietações como me perguntar “o que eu estou fazendo aqui?” acontecem.

Percebi que quando me pergunto isso não é porque tenho dúvidas se fiz a coisa certa vindo para cá, é por cansaço mesmo. Então, de vez em quando vem o pensamento: se eu estivesse no Brasil agora, eu poderia chegar em casa e assistir um filme deitada na cama. Mas eu não estou no Brasil, estou em Londres, então devo chegar em casa e estudar, pois tenho que entregar um trabalho amanhã na faculdade ou tenho que ler tal livro para a dissertação. Ah, tenho saudade de não fazer nada.

Contudo, depois de várias reflexões, penso que hoje não poderia estar em outro lugar. No Brasil, tinha um emprego que me pagava bem, cheio de benefícios e regalias, e que eu poderia ter para sempre, pois era servidora pública. Porém, não me fez feliz. Talvez não tenha nada a ver com o emprego em si, mas aquele lugar não me pertencia naquele momento. E como quem fica parado é poste, se eu não estou feliz, não alugo o ouvido de ninguém com minhas mazelas, eu mudo. E naquela ocasião ainda achava que a profissão que eu havia escolhido poderia não ser a mais adequada para mim, e resolvi mudar isso também. Então vir para Londres significou uma mudança em todos os aspectos que eu precisava. E mudança de verdade dá muito trabalho.

Aqui estou eu sentindo tudo o que provoquei. Vivendo em outro país, com outra cultura, falando uma lingua que não é a minha, investindo tempo e dinheiro aprendendo uma profissão que nem sei se vai dar certo, trabalhando duro para ter dinheiro e fazer todas as viagens que pretendo. E querem saber? Está valendo a pena. Muito cansada, muito atarefada, mas muito feliz. Sorte a minha ter casado com uma pessoa que também não consegue ficar parada numa vidinha mais ou menos, e que não só tem coragem de sair pelo mundo junto comigo, como me estimula a isso.

Virei consultora para quem quer dar uma reviravolta vida. Conto tudo, prós e contras, realidade, tristeza, felicidade... Confesso que sou parcial: aconselho todo mundo a mudar se está precisando disso. Vamos ter coragem de dar a cara a tapa e ver o que acontece.

Para terminar, devo concordar com o grande Gil, o melhor lugar do mundo é aqui e agora.


9 comments:

  1. Nicole,
    Belo post! Mudemos sempre! Não paremos nunca! :)
    Beijos e boa sorte, Raul.

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  2. A rolling stone gathers no moss!

    "As pessoas tem medo das mudanças. Eu tenho medo que as coisas nunca mudem." Chico Buarque

    E vamo que vamo!

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  3. Acho que também já tive minha cota de mudança radical quando saí da Vale com um ótimo salário, aquele lugar também não mais me pertencia. Hoje, funcionária publica, estou num lugar que me pertence com trabalho que gosto e colegas tão especiais que se tornaram amigos de verdade. Vá se encontrando querida.

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  4. Putz, que doido que ficou esse blog!! As mudanças são inevitáveis, mudamos sempre e essas mudanças é dão graça a vida!

    "As coisas mudam para permanecerem as mesmas", do grande Giuseppe Tomasi di Lampedusa!

    Abraços, GUSTAVO (Sudecap)

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  5. Nicole!!! Parabéns pelo blog, está muito bacana!!!
    Adorei conhecer vocês.

    Saudades londrinas.
    Um forte abraço
    Rita

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  6. Pois é amiga, como te entendo...mudar não é facil, a vida às vezes não é facil, mas vale tanto a pena ;)

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  7. Pessoal, adoro receber os comentários aqui no blog!

    Raul, vamos sim continuar com as mudancas e dar sentido e graca a vida...

    Maria, esse meu espirito livre veio de voce, definitivamente.

    Gustavo, que bom que gostou do blog, seja bem vindo, a casa é sua.

    Rita, sempre que passar por Londres nos avise, adoramos ter conhecido voce!

    Dulce, sua mudanca foi bem parecida com a minha, e parece que fizemos muito bem. :)

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  8. Hoje, tentando matar a saudade de Grenoble, acabei tropeçando neste blog de vocês... que achado bom!

    Dei umas rápida lida em vários posts, onde me identifiquei em vários deles. Não pelos lugares que vocês visitaram ou pelas aventuras que passaram, mas pela essência curiosa sobre o mundo e sobre as pessoas.

    Em especial com este post aqui, e nas tantas vezes que pensei sozinho ou com amigos em uma mesa de bar sobre a vida, no Brasil e no exterior, prós e contras, ânsias e desejos.

    Sou esposo da Aline Petry, amigo do Julian e da Patrícia, nos vimos poucas vezes em Grenoble. Uma pena não ter tido a oportunidade de conhecer voces melhor.... mas que sabe a gente ainda se cruze por ai.

    Abraço e parabéns pela nova aventura de voces, serem pais!

    Cristiano.

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    1. Ei Cristiano, que bacana que voce gostou do blog e se identificou com posts. Nós, expatriados, costumamos ter muitas coisas em comum, né. Tomara que nos cruzemos outras vezes por aí. Beijos na sua família linda.

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