Thursday, December 24, 2015

Deportados na Turquia


Não se preocupem, estamos na França, passamos bem, esta história de deportação é antiga, hehe. Ano passado, quando estava grávida do Dante, fizemos uma viagem "babymoon" para Turquia. Quando escrevi aqui sobre esta viagem, comentei que fomos deportados, mas não expliquei direito e falei que faria um post sobre isso depois. Nunca fiz! E vivo falando para mim mesma: preciso fazer este post... Até que há umas semanas umas amigas me perguntaram várias coisas a respeito, então resolvi finalmente colocar aqui. E também quero deixar esta aventura registrada neste blog, então voilà!

Uns 15 dias antes da nossa viagem para Turquia, o Fábio foi conferir o passaporte dele e descobriu que ao entrarmos no país, ele teria apenas um mês de validade. Ficaríamos apenas 2 semanas de férias lá, mas a gente sabe que é bom ter um passaporte válido por mais tempo. Como naquela época a gente não estava fazendo viagens para fora do espaço Schengen (uma convenção entre alguns países europeus que têm as fronteiras abertas e livre circulação de pessoas), nem estávamos nos inquietando muito com a validade do passaporte. Mas a Turquia não está no espaço, então, ficamos meio preocupados em viajar com um passaporte válido por tão pouco tempo. Decidimos pesquisar as regras de passaporte para entrar na Turquia. Fomos nos sites do ministério de Relações Exteriores turco e na Embaixada da Turquia no Brasil. Em ambos estava escrito que para brasileiros não era necessário visto (já sabíamos) e o passaporte deveria estar apenas válido. Ok! E encontramos relatos parecidos em blogs com casos positivos. Ok! 
Primeiro fomos para Bucareste, na Romênia, passar o feriado de Páscoa com um casal de amigos romenos e de lá pegaríamos o voo para Istambul. Passamos um feriado maravilhoso e em seguida pegamos um voo para a Turquia. Ao passar pelo guichê de imigração, o cara olhou meu passaporte, carimbou, olhou o do Fábio e falou, "vocês poderiam esperar aqui do lado, por favor?". Pronto, tremi. Esperamos alguns minutos, depois veio um outro cara, nos chamou para uma sala reservada e falou: "Senhor, seu passaporte deveria estar válido por no mínimo 6 meses, você não pode entrar, sorry". Tentamos argumentar, falamos das regras que havíamos lido (e imprimido) nos sites oficiais e ele falou que as regras tinham mudado uma semana antes da viagem(!). Perguntamos se poderíamos tentar falar com a embaixada do Brasil, eles falaram que sim (com os nossos telefones, claro). O funcionário da embaixada que nos atendeu não ajudou em nada. Uma hora ele falou que mandaria um outro funcionário no aeroporto para pegar os documentos do Fábio e fazer um novo passaporte. Mas quando falamos que estávamos no Sabiha Gokçen (aeroporto mais longe) e não no Ataturk (o aeroporto internacional, onde ele pensou que estávamos) ele desconversou, falou que não dava, e bla bla bla. 

Esta ligação não aconteceu numa sala privada. Enquanto falávamos chegavam e saíam várias pessoas que não poderiam entrar no país também. Alta rotatividade naquela sala. E a gente meio que ia ouvindo algumas histórias. Uma das pessoas que não entrou devido ao mesmo motivo do Fábio foi um alemão. Só que pagando uma multa, ele conseguiu entrar. mesmo assim ele ficou bravo e falou, "então, o que vocês querem é dinheiro?". Pagou e entrou. Com uma família suiça foi a mesma coisa. Aí tive que perguntar, "por que a gente não pode simplesmente pagar esta multa também??". Porque não, sorry. É, minha gente, passaporte europeu, nessa situação, é melhor que passaporte brasileiro, sorry.

Depois de mais de uma hora naquela sala, o funcionário se virou para mim e falou: "Seu passaporte está ok, pode entrar se quiser. Você vai entrar ou ficar  com seu marido?". Respondi, "Olha, a gente vai sair do país antes do passaporte dele vencer, temos aqui as passagens de volta, pode ver, não faz sentido a gente não entrar, bla, bla, bla, etc...". E ele respondeu curto e grosso, com cara de bravo e falando alto, "Você vai entrar ou vai ficar?". E o que eu poderia responder, gente?! Já era quase meia noite, eu nem sabia como chegar no nosso hotel naquele horário, nunca tinha estado naquele país, um lugar que podia ser completamente hostil com as mulheres... "Vou ficar", respondi.

Então, fomos conduzidos cada um para uma sala enquanto esperávamos um voo que nos levaria de volta à Bucareste, pois eles te mandam para o lugar de onde você veio por último e pela mesma companhia aérea. Eu fui para a sala das mulheres e Fábio para a dos homens. Na minha sala havia mais umas seis mulheres, cinco da Rússia e uma da Congo. Era uma prisão, pois ficamos trancadas lá dentro, mas era confortável, tinha sofá-cama, banheiro e televisão. Nenhuma das minhas companheiras de "cela" falava muito inglês, às vezes a guarda chegava lá e falava algo e elas  ficavam se olhando com cara de dúvida. Então, passei a "traduzir" o que a guarda falava. Ela chegava, falava em inglês e eu explicava para as meninas em inglês também, mas falando bem devagar, fazendo mímica e mostrando objetos se precisasse. E com a garota do Congo eu traduzia para o francês. A guarda percebeu e depois de um tempo passou a não se dirigir mais a todas. Ela me chamava, passava informação e eu repassava. 
Salinha de deportação do aeroporto Sabiha Gokcen
Passei a noite lá, pois só tinha voo para Bucareste na manhã seguinte. Fui muito bem tratada. Como estava visivelmente grávida, toda hora me perguntavam se eu queria água e me deixavam falar com o Fábio. Nos encontramos por 2 vezes naquela noite, sempre com a presença de guardas e por no máximo 5 minutos. 

E quanto às refeiçõess??? McDonalds. Estávamos naquele país de culinária fantástica e nos deram McDonalds... :( Tive que comer aquele lixo estando grávida ainda por cima. Desculpem-me amantes do McDonalds, mas, eca! Só consegui comer o pão e a batata, a carne não consegui nem olhar. Para minha sorte eu tinha um bolo tradicional  romeno de Páscoa na minha bolsa. Na verdade, o Fábio que tinha e passou para mim em um dos nossos encontros. A mãe dos nossos amigos tinha embrulhado pra gente levar na viagem (fofa!). Era um pedação que eu comi e ainda dei para minhas colegas de cela.
E nem refrigerante eu tomo... :P
Tirei umas sonecas e pela manhã foram nos chamar para avisar que iríamos embarcar. Um segurança do aeroporto nos escoltou até o avião. Até dentro do avião para ser mais exata. E voamos de volta para Bucareste. Lá fomos direto para o consulado brasileiro fazer outro passaporte pro Fábio. O funcionário foi super solícito e rápido, e em duas horas estava tudo pronto. Compramos novas passagens para Istambul para o dia seguinte. Pelo site do Booking, arrumamos um hotel facilmente e passamos a noite em Bucareste. No dia seguinte embarcamos novamente para a Turquia, passamos pela imigração sem problemas e depois foi só felicidade naquele país lindo!

Entramos! Chegamos! Aproveitamos!
Claro que não foi legal termos sido deportados, mas foi uma experiência nova e eu adoro experiências novas, hehe. Obviamente, a forma como aconteceu foi tranquila, nada de ruim aconteceu com a gente, fomos tratados bem, então não dá para reclamar. O ruim mesmo foi ter perdido 2 dias dos 3 que tínhamos programado em Istambul...

Lembrem-se, passaporte com validade de 6 meses é mais garantido! ;)

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